Primeiro veio o cansaço.
Um cansaço que dava a sensação de grilhões nas pernas e que só a custo as permitia mover.
Um cansaço que não se lembrava de sentir na cidade dos homens,
perto dos homens,
atrás dos homens,
em saltinhos cómicos enquanto tentava apanhar com a boca o ar que respiravam,
pedindo-lhes autorização para voltar a usar o ar que haviam usado,
e concentrando toda a sua energia nessa tarefa.
- Não se preocupe, senhor, que eu não me aproximo muito. Isso, pode
continuar a caminhar assim, alto, muito alto, todo esticado, olhar focado para
evitar distracções prejudiciais ao firme intento, que eu cá me arranjo. Só
preciso de ir atrás de si. Não sei se consigo ir tão depressa, mas cá me
arranjo. Posso correr. Eu sei correr. Era o melhor da minha turma e olhe que
não chegava a correr. Fazia que corria, parecia que corria e eles, os tontos,
achavam que eu não só corria, como corria muito e muito depressa.
Se preferir, eu paro de correr quando me parecer, ao ver o senhor
inclinar os ombros, que há em si a suspeita de que alguém o persegue. Mas o senhor
não inclina muito pois ombros, pois não?
Se preferir, eu escondo-me atrás de um caixote ou dentro de uma loja
quando me parecer, ao ver o senhor virar a cabeça, que vai olhar para trás. Mas
o senhor não vira muito a cabeça nem tão-pouco olha para trás, pois não?
Posso até ajoelhar-me quando me parecer que o senhor vai não só virar a cabeça
e olhar para trás, como para baixo. Assim não chegará a ver-me e será como se
eu não existisse. Mas o senhor não olha muito para baixo, pois não?
Deixe lá, eu cá me arranjo.
Depois, veio a perda de memória.
Sabia que tinha chegado até ali à custa de um acontecimento trágico, só
um acontecimento trágico poderia afastá-lo dos homens, a morte de um filho, por
exemplo, mas para isso precisava de haver uma mulher a quem lembrar e não, não
havia. Apenas homens subtraídos à lembrança de estar perto deles, atrás deles, apanhando
com a boca o ar que respiravam, pedindo-lhes permissão para voltar a usar o ar
que haviam usado e concentrando toda a sua energia nessa tarefa.
Mais tarde, veio a confusão com os nomes.
As árvores já não eram árvores mas coisas altas, muito altas, não tão
altas como os homens - como lhes cobiçavam a altivez e a capacidade de se deslocarem e ainda
assim conseguirem manter-se imperturbáveis, um dia havemos de ser assim, pensavam, é
certo que caminhar não está ao nosso alcance, mas o resto há-de estar, e está,
sim, havemos de ser como os homens, ainda maiores do que os homens, que
precisarão de se reunir, de se erguer uns sobre os outros, se quiserem chegar à metade mais acessível do nosso tronco, e felizes com isso, pois em vez das possibilidades que
conheciam e as que se sentiam gratos por não conhecer, terão apenas uma, um só
caminho - e castanhas, algumas estreitas outras largas, com coisas verdes pendentes,
e que serviam para ele apoiar as costas. Só por isso estavam ali, bem como os
pássaros, que já não eram pássaros mas coisas que preferiram, a dada altura, o
céu à terra, quase podendo ser homens num estado avançado de desenvolvimento e
que por essa semelhança, para si óbvia, serviam para o distrair. Só por isso
estavam ali, bem como o rio, que já não era rio mas água como a que saía da torneira
lá de casa, agora correndo na horizontal, e que servia para lavar o corpo, o de dentro e o de fora.
Era mais simples na cidade, onde com uma palavra, duas se o auditório
fosse do tipo desconfiado, resolvia, de uma vez e sem perder muito tempo, o
assunto.
Mas não se lembrava dessas palavras e por isso não lhe restava outra
alternativa.
Por fim veio a troca de membros.
Fazia calor e tinha sede.
Chegou junto daquela água igual à lá de casa mas sem torneira e correndo
agora na horizontal, e em vez de usar a boca, como sempre fizera, pareceu-lhe
que o nariz seria mais adequado para o efeito, dada a sua forma natural. Quando
se apercebeu que havia falhado, já era tarde. Ficou por muito tempo prostrado no chão,
antecipando as consequências que por norma advêm de uma circulação errada.
Não, assim não podia ser.
Voltou para a cidade e instalou-se confortavelmente perto dos homens,
atrás dos homens.
Pedindo-lhes permissão para voltar a usar o ar que haviam usado,
e concentrando toda a sua energia nessa tarefa.
Helena

